Aracaju, 22 de Junho de 2017
O retrato de Omran Daqneesh, o menino sírio


Na realidade atual, onde a insensibilidade e a violência forjaram a permanência no cotidiano das pessoas, as atrozes aberrações se tornaram tão rotineiras que os espantos e os gritos se tornaram em dolorosos silêncios. A todo instante surge uma notícia nova de um ataque terrorista, de um atentado, de uma armadilha sangrenta. As vítimas? Quase sempre aqueles indefesos que sequer podem fugir das trincheiras das guerras e das revoluções. Numa covardia sem mira, qualquer um pode servir de alvo. E dessa vez foi Omran Daqneesh, o menino sírio.

Os jornais estamparam o retrato e informaram sobre a comoção causada pelo menino sírio Omran Daqneesh, resgatado dos escombros de um edifício bombardeado em Aleppo, a maior cidade do norte da Síria, capital da província homônima, numa guerra que já dura cerca de cinco anos. A mesma idade do menino vitimado pelas suas atrocidades. Toda a família foi atingida pelos bombardeios, mas os socorros não uniram os familiares. Restou o menino sozinho, sentado numa cadeira de ambulância, na proximidade de outra menina igualmente ferida.

Um retrato verdadeiramente comovente, tocante demais aos sentimentos. E não seria para menos. Que retrato terrível: um menino de cinco anos, de cabelos lisos, todo assanhado, com a roupa suja de poeira e o rosto tomado das marcas da violência, ferido e sangrando. Sim, o rosto está machucado, com sangue empoeirado deixando uma sombra que se derrama em sofrimento. Sua feição: um olho assombrosamente aberto e o outro fechado por inchaço, num gesto silencioso que não esconde a dor sentida por dentro. Sentado, parecendo estático, talvez sequer compreendesse a sua real situação. E, de fato, não compreende mesmo. Ninguém compreende, a não ser a selvageria humana. 

Em tudo, um retrato triste, perverso, cruel, de instantâneos repetidos e que atingem não só crianças como pessoas de todas as idades nas guerras genocidas. No caso sírio, Aleppo representa a voracidade maior da guerra travada entre rebeldes e tropas fiéis ao governante Bashar al-Assad, com a participação de forças internacionais que interferem no conflito ora de um lado ora de outro. Os rebeldes são apoiados, por exemplo, pelos Estados Unidos, Turquia e Arábia Saudita, dentre outros. Já os governistas são apoiados pela Rússia e outros países interessados nas suas riquezas. Além da interferência do Estado Islâmico e milícias que vão avançando sobre as trincheiras ensanguentadas. 

As consequências dessa guerra difícil de ser contida, principalmente pelo fato de envolver forças internas e internacionais, são as mais terríveis. Todos os dias centenas de mortos, dezenas de bombardeios, utilização de gases mortais contra populações inteiras, perseguições e mortes às minorias, colocando sunitas contra xiitas, fazendo emergir cada vez mais fortes as táticas brutais e sanguinárias dos jihadistas. Quer dizer, uma revolta interna foi se transformando num jogo bestial de interesses internos e externos, transformando em vítimas desde velhos a indefesas crianças.

Sem saída diante do caos instalado, desprotegidas ante os bombardeios e os gases lançados, perseguidas por etnias rivais e até pelas próprias forças governistas, as minorias procuram fuga a todo custo. Mas quando se lançam ao mar em frágeis e apinhadas embarcações, logo os jornais noticiam a morte de dezenas nas águas. Por isso mesmo que tantos corpos de crianças são encontrados boiando, enquanto outros chegam às beiras das praias e ali são deixadas sobre a areia. Assim continuará acontecendo com milhares de refugiados que se lançam à sorte da fuga pelo mar. Um terrível destino: ou ficar e morrer ou nem sempre sobreviver nas terríveis travessias.

Na Síria e outros países existem milhões de Omran Daqneesh. O noticiário estampou apenas uma fotografia do menino, mas muitas outras são diariamente reveladas na mesma situação. Aos olhos e à insanidade da guerra, do terror e da brutalidade, tanto faz que uma jovem vida se perca ou não. Também tanto faz que as pessoas de mais idade sucumbam como vermes esmagados pelos bombardeios e atentados. Em países tais, o valor da vida é dado pelo preço da guerra. A vida por um ataque, por um tiro, por um gás, uma fuga desesperada. Quer dizer, a vida na valia de nada.

Nos últimos anos, os retratos das crianças nos países em guerra são os mais terríveis e abomináveis. Quem não se recorda daquela imagem do menino Aylan Kurdi morto na beira da praia como um anjinho adormecido, ou daquela outra criança retirada morta das águas e carregada por um socorrista? Retratos de dor, de sofrimento, de fim de mundo mesmo. Tais retratos deveriam estar expostos permanentemente nos gabinetes dos governantes e ditadores, bem como na sede da ONU. 

E com os seguintes dizeres abaixo de cada retrato: É assim que cuidamos da infância!

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RANGEL ALVES DA COSTA é advogado e escritor. Acesse blograngel-sertao.blogspot.com

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