Aracaju, 22 de Junho de 2017
Um carro-de-boi sobre a mesa


Sábado, em Poço Redondo, no sertão sergipano. Sentado numa das salas do Memorial Alcino Alves Costa, ante uma mesa de verniz antigo, envolto em objetos e retalhos sertanejos, diante de mim essa máquina de escrever e mais ao lado uma representação sertaneja que me prende a atenção: um carro-de-boi.

Sim, sobre a mesa um pequeno carro-de-bois. Todo em madeira rústica, artesanalmente trabalhado, tudo contém de um carro-de-bois de verdade: canga, canzil, arreia, cabeçalho, fueiro, mesa, roda de madeira, etc. Só faltando mesmo o carreiro. Contudo, o mais importante: a exata representação de um sertão que pouco se avista na própria terra sertaneja. Tal tipo de transporte sumiu das ruas, das estradas, das veredas matutas, das malhadas das fazendas e pequenas propriedades.

Aqui escrevendo, olho de lado e sinto a sua presença, posso até tocá-lo. Num tempo de sertão sem veículos, sem asfalto, sem motores roncando e sem os atropelos das máquinas, somente as rodas e as patas da terra para conduzir o progresso. No lombo do burro, do jegue, da mula, os cestos pendendo nos dois lados, no trote da condução da colheita, do produto tão necessário à sobrevivência.

Pelos estradões empoeirados, pedregosos e distantes de tudo, os comboios e comboeiros levando e trazendo o comércio de então. Mas no contexto de cada localidade, o atrelamento de bois à canga já se fazia suficiente para o transporte de tudo. Assim iam os carros-de-boi gemendo pelos sertões, rangendo sua madeira, guiados pelos carreiros. Geralmente de chibata à mão, ou mesmo com vara de ponta afiada para ferir as ancas dos bichos e fazê-los apressar, assim garantiam a chegada.

Olho ao lado e avisto o pequeno carro-de-boi, miniatura de um sertão inteiro. Não há que se falar em sertão sem relembrar o boi, o curral, o vaqueiro, o cavalo, a catingueira, o mandacaru, a vereda espinhenta, o casebre, o próprio sertanejo. E também o carro-de-boi como condutor de vidas e gerações, como o transporte para se vencer os desafios das cargas mais pesadas, pois levando saco de milho, de feijão, a palma cortada, os feixes de capim. E muito mais.

No ranger da madeira, no ruído das rodas, no cicio da terra, no silêncio cansado dos bois e no brado do carreiro, assim a jornada até a porteira se abrir. A madeira forte, porém já envelhecida e enfadada da luta, parecia gemer no solavanco da estrada. Quanto mais graxa era colocada nas engrenagens de madeira, mais o gemido ecoava. Com o peso do carrego, as rodas abrindo sulcos sobre a terra e fazendo surgir um soluçar mastigado. O carreiro nunca gostou de som lamentoso e açoitava e ferroava o bicho para seguir mais depressa. E na sua voz a ordem ouvida e entendida pelos bois: Vai-te Estrela, vai Ouro Fino!

A depender do peso da carga, com dois ou quatro bois sustentando a canga, o antigo veículo sertanejo estava por todo lugar. Quando o carreiro não tinha pressa, se colocava adiante dos bois sem maiores preocupações. Voltava-se apenas quando o carro começava a gemer diferente, querendo parar, ou quando chegava ao destino. No demais, nem precisava ordenar que forçasse a entrada numa ou noutra curva, pois os animais sempre seguiam o seu passo. Mas noutras vezes, quando a viagem era mais longa, o carreiro sentava na madeira e dali só descia para abrir uma porteira ou quando a jornada chegava ao fim e precisava descarregar o seu carro.

Para muitos, um mistério, para outros apenas lenda, mas a verdade é que o carreiro sempre temia que, repentinamente, os bois freassem, se negando a seguir. E não adiantava gritar, dar ferroadas, tudo fazer para que dessem um só passo adiante. Não adiantava. Ou ele mesmo resolvia o problema ou não tinha outro jeito. E problema difícil de resolver, pois coisa do outro mundo. Com cavalos acontecia a mesma coisa. Quando o bicho parava, começava a levantar as patas e revirar com cavaleiro e tudo, o sinal estava dado: por ali, rente à estrada, havia coisa ruim, e não dessa vida, mas do outro mundo. Por maior coragem que tivesse, em situações assim o sertanejo também se arrepiava dos pés à cabeça. Por isso levava sempre no bolso um terço de contas e uma reza na boca. Então orava e pedia para que todo mal se afastasse e a força divina permitisse prosseguir seu caminho. Era quando as porteiras da terra novamente sempre abriam.

Tudo isso me vem à memória ao avistar o carro-de-boi sobre a mesa, bem ao meu lado. Noutros tempos, aqui mesmo onde estou agora, não era difícil ouvir o seu rangido na passagem e avistá-lo da janela. Mas hoje já não passam mais nas ruas asfaltadas e raramente são encontrados pelas estradas. Como aconteceu com o animal de montaria, que foi esquecido de vez depois que as motocicletas tomaram o seu lugar, assim também com o carro-de-boi. Os que ainda restam repousam debaixo dos juazeiros, dos umbuzeiros ou no meio do tempo. E, abandonados, gemem apenas suas mortes lentas.

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RANGEL ALVES DA COSTA é escritor. Acesse blograngel-sertao.blogspot.com

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