Aracaju, 18 de Novembro de 2018
Luciano Barreto: "Eu nunca aceitei a morte de Júnior. Mas nunca questionei o porquê”


Luciano Franco Barreto, 78 anos. Eis um sujeito grande sob o sol de Sergipe. Grande no nome. No modo de viver como empreendedor. Nos gestos largos. Na passionalidade como encara os negócios, as amizades, a generosidade, a família, a paz e a briga.

Luciano Barreto é um hiperbólico na forma como transita pela política há quase 60 anos, desde o momento em que se fazia engenheiro civil na Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia.

Na Bahia, Luciano chegou de mala e cuia em 1957 como aluno ainda do terceiro ano do ensino médio do famoso Colégio Central da Bahia, responsável e afetivamente sacudido porPaulo Figueiredo Barreto e Cleonice Franco Barreto, que queriam educacionalmente o melhor para ele e os demais filhos AdilsonFrancisco e Marcelo.

De olhar grande e muito inquieto, Luciano Barreto, quase ainda imberbe, recém-formado engenheiro em 1963 pela UFBA, caiu no radar do apreço de ninguém menos do que o governador da Bahia de 1963 a 1967, o odontólogo Lomanto Júnior (1924-2015).

Como no verso da canção de Gilberto Gil, Lomanto lhe “deu régua e compasso”. Mandou-o tocar obras públicas em sua Jequié natal, onde Luciano conviveu com Norberto Odebrecht, o mitológico fundador da Construtora Odebrecht.

Mas, valendo-se da liderança que ele desenvolvera e aprofundara no curso de Engenharia da Escola Politécnica, Luciano Barreto intuiu que o sol lhe brilharia bem mais forte em Sergipe, por quem nutre um confessável afeto.

Em 1966, Luciano Barreto, ainda com o pé na Bahia, e os cunhados Luiz e Tarcísio Teixeira já eram donos da Norcon, empresa adquirida junto ao construtor Gerci Pinheiro Machado com ajuda dos pais dos três - Paulo Barreto e Oviedo Teixeira.

Mas essa lua de mel - ou fel - durou pouco. O negócio rendeu homéricas desavenças com os cunhados, e Luciano pulou fora. No dia 22 de maio de 1968, ele já estava encastelado numa salinha da Avenida Rio Branco, onde o pai “tinha um prédio fechado”. Nascia ali a Construtora Celi, em cujo nome ele homenageava a grande companheira Maria Celi.

“Começamos só com a mesa de trabalho, um telefone e um fusca usado”, sintetiza ele. Cinquenta anos depois, e a Construtora Celi dispensa apresentação. Dizem as boas línguas que ela é dona do maior “land bank”, bancos de terrenos urbanos, de Sergipe, notadamente em Aracaju.

A grandeza pessoal e patrimonial de Luciano Barreto encontram nesse e em outros temas ligados à riqueza e a opulência um paredão bem concretado. Intransponível.

Sobre o banco de terreno, ele prefere a tangente da humildade. “Prefiro não quantificar, porque pode parecer arrogância. É o suficiente para se constituir numa matéria-prima importante para ser usada ao longo de muitos anos”, diz ele. 

Na verdade, apesar do tamanho, Luciano Barreto pensa como gente simples. Bem remunerado como pessoa física pela Celi, se acha um privilegiado classe média. Mora super bem, mas usa carros e roupas sem o menor traço de extravagância ou triunfalismo. É um normal, que diz respeitar muito seus colaboradores.

Apesar dos seus tantos afazeres como grande empresário, Luciano ainda encontra tempo para ser um briguento presidente da Aseopp - Associação Sergipana dos Empresários de Obras Públicas e Privadas - e um solidário comandante do Instituo Luciano Barreto Júnior - ILBJ.

Em uma, ele avança positivamente sobre os interesses aviltados da sua classe. De gente até, patrimonialmente, bem menor do que ele. Com o ILBJ, busca cauterizar diariamente “uma dor que não tem nome”, que é a simbolizada pela morte precoce de Luciano Barreto Júnior no dia 6 de setembro de 2002.

“Eu nunca aceitei a morte de Júnior. Mas nunca questionei o porquê”, diz ele. Logo após a morte do filho, Luciano encontrou nos papeis rabiscados por Júnior a constituição completa do ILBJ.

Só que o jovem não dava o nome de Instituto Luciano Barreto Júnior. Dava o de Instituto Paulo Figueiredo Barreto. Ao materializar esse projeto, o pai é que lhe deu o nome, em memória. Pelo ILBJ já passaram 15 mil jovens, todos de origem pobre. A família não aceita um tostão de ninguém como ajuda.  

JLPolítica - O Instituto recebe alguma verba pública?
LB –
 Não. E é proibido. Nem verba pública, nem privada. É mantido pela família.

JLPolítica - Em menos de dois anos, em setembro de 2020, o senhor emplaca 80 anos. O que é a longevidade para o senhor?
LB - 
Deus me fez uma pessoa iluminada, e espero chegar aos anos 80 com essa saúde e essa disposição. Veja: não esqueci de nada que você me questionou nessa entrevista. Então, espero ir longe. Minha família precisa e eu sou um homem de bem com a vida. Em Salvador, morei numa pensão, cujo quarto era metade desse escritório aqui onde estamos conversando em meu apartamento. Eu vinha de ônibus, tarde da noite, ou pegava o trem da Leste do Brasil. É um longo caminho de trabalho. De honra aos compromissos assumidos. Júnior me fez enxergar muito isso: fez-me ver a Celi como um conjunto de ações. Um todo.

JLPolítica - O senhor teme a morte e o desconhecido que ela representa?
LB –
 Não propriamente o medo de morrer, mas a forma de morrer. Nascemos e morremos. Eu já tenho um privilégio que meu filho não teve: 50 anos a mais de vida. Ele morreu com 28 anos, em estou com 78. Deus me deu recursos, a oportunidade de implantar o Instituto. Tenho isso. Estou bem e espero ter o que tenho hoje até o fim da minha vida. Eu sou uma pessoa física, um executivo bem pago. Os recursos da Celi estão na Celi.

JLPolítica - O que o senhor vê de positivo no homem público Gilmar Carvalho? O senhor o tem como confiável?
LB -
 Eu vejo positivismo na sua atuação como jornalista, radialista. O tenho como um homem preocupado que, em alguns momentos, supriu o poder público naquilo em que o poder público não atendia às pessoas. Só sabe da importância de Gilmar Carvalho quem, nas camadas mais pobres, fez algum apelo e ele correu atrás para atender. Eu o vejo como confiável.

“EU NUNCA ACEITEI A MORTE DE JÚNIOR”
“Significa uma dor que não tem nome. Ah, “estou sofrendo por amor, por doença”. Perder um filho é uma dor pior. Mas não tem nome. Eu nunca aceitei a morte de Júnior. Mas nunca questionei o porquê”.

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[+] Entrevista especial deste domingo, 4, do JL Política

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